OPINIÃO

8 - Julho - 2013

Balanço do Movimento

Passe Livre vacilou
O Movimento Passe Livre mostrou que desencadeou um movimento, venceu e está conseguindo perdê-lo.
Ganha a reivindicação de anulação dos aumentos de passagem, o MPL não disse nada. Convocou uma passeata da vitória. Vitória muito parcial, diga-se de passagem, já que prefeitos e governadores não disseram até quando os preços continuarão onde estão.
Uma das dirigentes, disse, logo depois da decisão dos governadores e prefeitos do Rio e de São Paulo, que a luta passaria a ser contra o latifúndio urbano e rural. Era difícil ver a ligação que isto tinha com a questão dos transportes. O MPL esnobou as reivindicações que a grande massa de jovens colocou nas ruas: melhoria da saúde, da educação, luta contra a Pec 37, luta contra a corrupção, denúncia da cura gay.
O MPL tentou pegar o ônibus de retorno. Anunciou que as manifestações estavam tomadas pela direita e que não chamaria novas passeatas.
Dois dias depois, negou que tivesse dito o que disse. E depois apareceu convocando uma manifestação na periferia paulista, que não teve expressão. Ao não bancar as reivindicações presentes no movimento de massas, o MPL perdeu a hegemonia das manifestações. Se apresentando como de esquerda, o movimento pode estar sendo pressionado pelos grupos conservadores da própria esquerda, sobretudo aqueles encastelados no governo.

 
E a direita tentou ganhar espaço
Matéria do Globo Online diz que, no sábado 22 de junho, pessoas de direita passaram a se manifestar e a disputar a liderança do movimento:
_A multidão que ocupou as ruas de São Paulo em manifestação neste sábado é detentora de camisas, hinos e ideais bem diferentes dos que têm aqueles que na semana passada pararam a cidade para forçar governos a revogarem o aumento da passagem de ônibus, trem e metrô na cidade.
 Os novos líderes têm o apoio dos recém fundados e ainda sem menções na pesquisa do Google Ordem em Progresso e Unidos por um País Melhor (UUPM). A diversidade de lideranças se refletia numa discreta disputa pelo espaço de faixa principal à frente da manifestação.
— Já que o MPL caiu fora depois de atingir o objetivo deles, estamos assumindo a luta por um Brasil maior — resumiu o estudante do ensino médio Vitor Araújo, de 19 anos.
Na concentração da passeata na Avenida Paulista, os principais alvos na boca do público eram o presidente do Senado Renan Calheiros, a presidente Dilma Roussef, o ex-presidente Lula e a PEC 37, projeto de emenda constitucional que retira do Ministério Público a atribuição de realizar investigações criminais, em discussão no Congresso.
Mas a direita não conseguiu manifestações expressivas e sumiu também do mapa, ainda mais que a grande mídia estava tão temerosa com as manifestações quanto o PT.

As pesquisas e o movimento
Duas pesquisa apareceram sobre as opiniões dos participantes do grande movimento de massas.
O Datafolha afirma que a maioria absoluta dos participantes dá apoio à democracia (87%). Apenas 5% disseram que, sob determinadas circunstâncias, uma ditadura é melhor que o regime democrático.
Neste fim de semana, até o Verissimo se preocupou com um eventual retorno a um regime forte, ideia posta por setores do PT, confirmando seu próprio reacionarismo.
A pesquisa também observa que a ampla maioria (72%)não tem partido. Estes dados foram extraídos na manifestação do dia 20 de junho. Na manifestação do dia 17, 84% eram sem-partido, mostrando que os militantes aderiram com mais força ao movimento.
A orientação política do grupo que foi à Paulista está majoritariamente ao centro (31%) e à esquerda (22%), o que se traduz nas posições que defendem: contrários à adoção da pena de morte, ao porte de armas e defensores de a sociedade aceitar o homossexualismo (88%).
Extremos liberais são a maioria (32%) e conservadores extremos, a minoria (2%).
Protestar contra a corrupção foi a razão de metade dos manifestantes estarem ali, à frente da luta contra o aumento da passagem (32%).  Mas a Folha explica que o aumento já tinha sido cassado na véspera.
O Datafolha confirmou que a ampla maioria era de pessoas entre 21 e 35 anos (63%)
O IBOPE afirma que 28% responderam que participaram dos protestos para barrar o aumento da tarifa, 24% em razão da corrupção, 12% para exigir melhorias na saúde, 6% para barrar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 37 -que delimita a atuação do Ministério Público- e 5% para criticar gastos com a Copa do Mundo e para exigir investimentos em educação.
Ou seja, a questão de transportes era prioritária.
A pesquisa mostra ainda que 46% dos entrevistados querem que o governo arque com os custos para a redução das tarifas do transporte público, 29% defendem que os empresários do setor paguem a conta e 21% são a favor de que os gastos sejam divididos pelo governo e pelos empresários.
Ou seja, os manifestantes não parecem estar ao lado dos empresários...
Estes dados confirmam o caráter progressista do movimento.

Esquerda conservadora denuncia o movimento
Um artigo de Marco Aurélio Weissheimer sintetiza o conservadorismo de certa esquerda. Diz o autor de um artigo intitulado Não há movimento em disputa:
A quem interessa uma massa disforme na rua, contra tudo o que está aí, sem representantes, que diz não ter direção, em confronto permanente com a polícia, infiltrada por grupos interessados em promover quebradeiras, saques, ataques a prédios públicos e privados, ataques contra sedes de partidos políticos e a militantes de partidos, sindicatos e outros movimentos sociais? Certamente não interessa à ainda frágil e imperfeita democracia brasileira. Frágil e imperfeita, mas uma democracia.
Em primeiro lugar, qualquer movimento de massas pode ser infiltrado por agentes policias. Nunca é demais esquecer - e vale lembrar para os mais jovens - que o próprio Lula e, posteriormente, o PT eram apresentados como criação do SNI de Golbery. Em segundo lugar, esta massa, embora represente um descontentamento difuso, apresenta reivindicações bem claras: anulação do aumento dos transportes, melhor educação, melhor saúde, contra a PEC 37, pelo fim da corrupção, contra o projeto da cura gay.
Não há nada de direita nestas reivindicações, a não ser pela parte da esquerda que, encastelada no poder institucional, teme perder a eleição de 2014.
O articulista, logo adiante, dá um salto. Já não se trata mais dos infiltrados, mas de todo o movimento que é culpado pelos ataques de alguns vândalos:
Uma certa onda de irracionalidade atravessa esse conjunto de ameaças e agressões, afetando inclusive militantes, dirigentes políticos e ativistas sociais experimentados que demoraram para perceber o monstro informe que estava se formando. E muitos ainda não perceberam. Após as primeiras grandes manifestações que começaram a pipocar por todo o país, alimentou-se a ilusão de que havia um movimento em disputa nas ruas. O que aconteceu na noite de sexta-feira mostra claramente que não há um movimento a ser disputado. O que há é uma multidão disforme e descontrolada, arrastando-se pelas ruas e tendo alvos bem definidos: instituições públicas, prédios públicos, equipamentos públicos, sedes de partidos, jornalistas, meios de comunicação. Os militantes e ativistas de organizações que tentaram começar a fazer essa disputa na noite de quinta foram repelidos, expelidos e agredidos. Talvez isso ajude a clarear as mentes e a desarmar um pouco os espíritos para o que está acontecendo.

O articulista comete mais de um erro. Primeiro, identifica a multidão com os ataques criminosos de radicais e até de bandidos. Depois, demonstra seu medo do povo na rua: fala em multidão disforme e descontrolada, arrastando-se pelas ruas, quando o que se viu foram multidões ordeiras, com objetivos genéricos mas bem claros e que, longe de se arrastar, se levantava contra algumas das coisas erradas que existem no Brasil.
Finalmente, ele coloca militantes do MST, do PSOL e do PSTU, ao lado do PT, todos sendo expulsos das manifestações. Mas há uma grande diferença: o PSOL e o PSTU, desde o inicio, apoiaram as manifestações. O PT, não. No dia 20 de junho, então, a direção nacional do PT decidiu participar na chamada comemoração.
A meu ver, o PT deveria ter sido bem recebido, sem qualquer discriminação. Mas entende-se por que muita gente reagiu, achando que o partido estava se aproveitando de uma luta que não era a sua. O articulista, aliás, esquece que o prefeito de São Paulo é do PT, e teve uma atuação desastrosa, de tecnocrata, terminando se jogando nos abraços de Alckmin que, constrangido, o aceitou. O articulista esquece também que o PSDB foi um alvo tão grande de críticas como o próprio PT.
A chave de ouro do artigo é a seguinte:
Como jornalista, militante político de esquerda e cidadão, já firmei uma convicção a respeito do que está acontecendo. Uma multidão cuja direção (rumo) passou a ser atacar instituições públicas, sem representantes, infiltrada por grupos de extrema-direita, que rejeita partidos políticos e hostiliza manifestantes de esquerda, não só não me representa como passa a ser algo a ser combatido politicamente. Ou alguém acha que setores das forças armadas e da direita brasileira estão assistindo a tudo isso de braços cruzados?                                    
 
O articulista, portanto, se diz de esquerda e coloca as manifestações como de direita. Coloca-se ao lado do Globo e da Folha, que, assustados, começaram a insistir no vandalismo e não nas manifestações.
E insinua ameaça de golpe. Ou seja, qualquer movimento de massas que não seja controlado pelo governo torna-se perigoso.
O autor diz que não se pode esquecer que há luta de classes. Não esquecemos. Mas é ele que está do lado de lá.

Partidos, representatividade  e anti-partidismo
Muita gente tem denunciado o caráter anti-partido das manifestações. Cientistas sociais, com razão, têm afirmado que uma democracia não se constrói sem partidos. Mas o que acontece hoje no Brasil não é exatamente isso, a não ser por parte de uma minoria. Manifestantes consideram que os partidos não iniciaram o movimento e queriam simplesmente se aproveitar dele.
Isso não é verdade, pois há militantes do PT, do PCdoB, do PSOL, do PSTU, do PCR que participaram no movimento desde o início. Mas, de fato, não foi daqui que se originou o movimento, mas de um grupo intitulado MPL.
Quando manifestantes gritam “sem-partido” traduzem a falta de representatividade destes mesmos partidos. São partido que, sem dúvida, têm representatividade institucional, mas que não se vinculam ao cotidiano da população, em particular dos jovens.
O PT foi uma importante tentativa de um partido mais ligado ás bases, ao dia-a-dia das pessoas. Mas fracassou, foi dominado pela institucionalidade, virou um partido comum.
Sem desmerecer o conjunto dos partidos do Brasil, sua representação é parcial e, quando eclodem protestos de massa de setores importantes da população, acham-se impotentes.
Os partidos deveriam pensar mais neste problema, em vez de se lançarem contra os manifestantes.


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